quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Material em vídeo para download


ISTVAN MESZAROS - Roda Viva
Filósofo húngaro, professor emérito da Universidade Sussex na Inglaterra, formado em Filosofia em Budapeste, István Mészáros deu aula em universidades na Itália, Escócia, Canadá e Inglaterra. Autor profícuo, empreendeu a tarefa de reescrever O CAPITAL a luz dos acontecimentos atuais. Para Meszaros, é possível construir um mundo pós-capitalista, livres dos vícios do capital (o metabolismo do capital). Infelizmente, o video se encontra em formato mp4.
Meszaros

HERBERT DE SOUZA - Roda Viva 1996
Participação do sociólogo Herbert de Souza no Roda Viva, militante da reforma agrária e luta ambiental e pelo combate a fome, recebendo vários prêmios por sua atuação. Hemofílico, contraiu AIDS numa transfusão de sangue. Faleceu em 1997, quando já organizava uma nova campanha "movimento Democracia na Terra". Deixo os links de sua participação no Roda Viva a fim de que o estudante compreenda que a sociologia, enquanto conhecimento teórico da realidade, pode conviver com a militância, enquanto proposta transformadora.
Parte 1
Parte 2

MÉTODO EM MARX

O Professor José Paulo Netto ministrou, em 2002, o Curso O Método em Marx na pós-graduação em Serviço Social da UFPE. O Curso foi gravado originalmente em Fitas VHS. A versão para DVD, dos 5 dias de aula (manhã e tarde), resultou em 2 DVDs por aula, num total de 10 DVDs.
AULA 1 DVD 1 / AULA 1 DVD 2
AULA 2 DVD 1 / AULA 2 DVD 2
AULA 3 DVD 1 / AULA 3 DVD 2
AULA 4 DVD 1 / AULA 4 DVD 2
AULA 5 DVD 1 / AULA 5 DVD 2

SLAVOJ ZIZEK NO RODA VIVA
link para download da participação de slavoj zizek no roda viva em formato avi:
SLAVOJ ZIZEK

DOCUMENTÁRIO "FLORESTAN FERNANDES - O MESTRE"
Um bom documentário sobre Florestan Fernandes realizado pela tv Camara. Deixei o link nos meus videos. Mas quem quiser pode baixar o video no site da tv Camara. Obrigatório para o estudante de ciências sociais, e recomendável a qualquer um.
FLORESTAN FERNANDES

FLORESTAN FERNANDES - Roda Viva
Participação do sociólogo Florestan Fernandes no Roda Viva. Dando sequência ao documentário postado antes, estamos disponibilizando os links para a participação do sociólogo Florestan Fernandes, que podemos afirmar, com segurança, ser o maior sociólogo brasileiro.
Parte 1
Parte 2
Parte 3

RACISMO - UMA HISTÓRIA

O racismo é fruto do processo de colonização, e tem como fundamento o eurocentrismo. A categorização heirarquica entre raças foi o instrumento de justificação da dominação européia sobre os povos. Esse traço da expansão európeia nos legou uma herança indelével e perniciosa - o racismo. Deixo o link para um ótimo documentário realizado pela BBC sobre a história do racismo. Infelizmente, não há legendas no link. No entanto, elas podem ser encontradas na rede.
A cor do dinheiro
parte 1 / parte 2 / parte 3 / parte 4 / parte 5 / parte 6
Impactos fatais
parte 1 / parte 2 / parte 3 / parte 4 / parte 5 / parte 6
Um legado selvagem
parte 1 / parte 2 / parte 3 / parte 4 / parte 5 / parte 6

Documentário: Levi-Strauss: "Saudades do Brasil"
Documentário realizado pela Tv Senado, com uma entrevista exclusiva com o antropólogo francês Claude Levi-Strauss e outras participações especiais. O documentário apresenta as impressões do antrológo em sua chegada ao Brasil, narrando, em seguida, suas experiências em expedições a tribos indígenas no país.
Parte 1
parte 2
parte 3
parte 4
parte 5

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Questões fundamentais da sociologia. Parte1.


1. O que faz com que o conhecimento científico seja diferente de outras espécies de conhecimento?
(a ciência é um saber metódico e rigoroso, i.e., um conjunto de conhecimentos metodicamente adquiridos, mais ou menos sistematicamente organizado) A ciência tem como finalidade explicar a realidade com base em observação sistemática dos fatos. Dessa forma, a ciência se diferencia da filosofia, por essa basear suas explicações em princípios gerais, especulativos, ou, quando muito, em observação casual de alguns fatos. Diferencia-se da tecnologia, pois o fim da ciência, conforme dissemos, é a explicação rigorosa dos fenômenos, enquanto a tecnologia, utilizando-se do conhecimento científico, busca a previsão e a transformação da realidade. O planejamento pode ser considerado, com certas restrições, a sociologia aplicada na intervenção social – não se recorre exclusivamente a sociologia, e muito mais frequentemente a economia é preferida àquela. Também não cumpre às ciências, em geral, e a sociologia, em particular, dizer o que é correto ou errado – matéria do direito e da ética, mesmo que a ética e a moral sejam, entre outros, objetos de estudo da sociologia.
2. Qual o papel da dedução na investigação científica?
Ainda que a indução cumpra um papel predominante no conhecimento científico, não poderia haver progresso da ciência sem a dedução, i.e., não seria possível a crítica do conhecimento estabelecido sem a formulação de novas idéias não estritamente derivadas da observação. A partir de teorias conhecidas é possível deduzir hipóteses que podem ser testadas, a fim de ou fazer progredir o conhecimento, agregando novos fatos à teoria, ou refutar a teoria, demonstrando sua inconsistência. A dedução é importante quando se trata de áreas pouco ou nada conhecidas, nas quais não é possível avançar senão através de hipóteses formuladas dedutivamente. Contudo, não se pode afirmar que a ciências se baseia apenas na observação imediata dos fatos e que as teorias científicas resultam da acumulação desses fatos. Não existe nada como uma observação imediata dos fenômenos. Toda observação dá-se sobre um pano de fundo de teoria e idéias prévias. Na atitude científica, contudo, não se pode deixar que essas noções prévias superem a evidência dos fatos.
3. Por que se admite que os sociólogos devem procurar ter consciência dos seus valores?
A sociologia, enquanto ramo do saber científico, não é valorativa, i.e., não emite juízos do que é bom ou mal na sociedade. Não cabe a sociologia dizer como a sociedade deve ser, mas constatar e explicar o que ela é. Contudo, a sociologia é realizada por pessoas que certamente possuem seus compromissos morais; e não se pode cobrar que seja diferente. Enquanto sociólogo, por outro lado, esse profissional procura ter consciência desses valores e fazer todo esforço possível para evitar que tais valores interfiram preconceitualmente na sua interpretação e percepção da realidade social.
4. Quais as relações entre história e sociologia?
Primeiramente, a história é uma disciplina imprescindível à compreensão científica da organização social, pois todos os fenômenos sociais ocorrem num contexto histórico e toda história é sempre a história das sociedades. As ciências sociais são herdeiras dos estudos históricos, pois eles correspondiam aos estudos sobre fenômenos sociais, antes do advento de uma atitude científica no estudo da sociedade. Atualmente, a historiografia recorre aos recursos teóricos da sociologia e da economia a fim de poder explicar determinados fenômenos históricos. Por sua vez, a sociologia recorre a pesquisa histórica a fim de subsidiar suas interpretações. Contudo, em pelo menos um aspecto fundamental, a história se distancia da sociologia. A história não é uma ciência, no sentido rigoroso do termo. Embora opere metodicamente, a meta da historia é identificar a autenticidade dos fatos históricos, não buscar regularidades observáveis nos fenômenos sociais. Sendo assim, podemos afirmar que, enquanto o historiador estuda o singular na sociedade, o sociólogo estuda o geral, ou, mais adequadamente, o que é possível de ser generalizado.
5. Se existe uma ciência específica dos fenômenos econômicos, como se justifica que os sociólogos também possam estudar esses mesmos fenômenos?
A economia é uma ciência especializada no estudo dos fenômenos de produção, da distribuição, da circulação e do consumo de bens e serviços escassos. A sociologia também se ocupa dos fenômenos econômicos, só que não os estuda em si mesmos, mas as condições em que ocorrem, conquanto a economia faça parte do mundo social. Podemos dizer, em suma, que nem todo fato social é econômico, mas todo fato econômico é social. E essa condição da economia é suficiente para justificar uma abordagem sociológica do fenômeno estabelecendo relações com outras instituições sociais.
6. Qual a diferença entre sociologia e doutrina social?
A sociologia é uma ciência. Ela compartilha características de uma disciplina cientifica: ela busca a explicação de algum fenômeno, ou conjunto de fenômenos, com base na observação, direta ou indireta, dos fatos que os confirmam. Suas teorias merecem o qualitativo de científico na medida em que suas teorias são confirmadas pela evidência empírica. Ademais, a sociologia, assim como qualquer outro ramo do conhecimento científico, não emite juízos de valor, nem pode dizer como a realidade deve ser; a ela cabe, tão somente, dizer o que ela é e procurar uma explicação empiricamente fundamentada. As doutrinas, por sua vez, não se baseiam na observação dos fatos, mas em idéias de como a realidade presumivelmente é, ou, principalmente, como ela deve ser. Dela não se exige sua demonstração pelos fatos. As doutrinas sociais compreendem ambiciosas projeções históricas de longo prazo. Já as teorias científicas, que dependem da comprovação dos fatos, não podem ocupar-se do futuro, uma vez que o futuro está num domínio do que não pode ser observado. A ciência se limita a algumas previsões na medida em que podem ser atestadas pela observação dos fatos. Nenhuma teoria científica pretendera explicar o que acontecerá no futuro. As doutrinas são indissociáveis da ética social. Elas dizem sobretudo o que a sociedade deve ser, o que nela é justo ou injusto, prescrevem sempre uma ação.
7. Qual a diferença entre problema social e problema sociológico?
O entendimento do que pode ser um problema social é variável. O que é um problema social para um pode não ser para outro. Existem dois critérios, ambos subjetivos, para a identificação de um problema social: o sentimento de indignação moral que um fato desperta em uma parcela significativa da população de uma sociedade, relacionado à alguma idéia de justiça, e o temor de que algum fato represente uma ameaça para a sociedade – tanto uma ameaça para sua existência material quanto uma ameaça para sua existência moral. Um problema social pode ser considerado como tal também ou pela sua origem na sociedade ou suas conseqüências sociais. Por sua vez, um problema sociológico significa problemas de explicação teórica do que acontece na vida social. Não se esgota nos problemas sociais, pois diz respeito também a questões que a sociedade usualmente não considera um problema social. A meta do sociólogo não resolver problemas sociais, mas, ao estudar esses problemas, o que o sociólogo deve pretender é, em ultima instancia, explicá-los.
8. Por que a sociologia, além de ciência, pode ser também uma forma de consciência social?
A sociologia não é apenas um tipo de conhecimento transformável em técnicas que possibilitem algum tipo de controle ou transformação social, mas também um meio possível de aperfeiçoamento do espírito, na medida em que pode auxiliar as pessoas a, de algum modo, compreender mais claramente o comportamento das outras pessoas, a sua situação e seu comportamento com os outros, aos grupos dos quais faz parte e a sociedade como um todo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Ideologia Alemã


Ainda em breve esboço. Discutirei, em tempo, neste espaço, a noção de ideologia em Marx, tal como se encontra no volume I do livro Ideologia Alemã. Esse livro apresenta uma dimensão histórica de interesse para o estudante: trata-se do primeiro livro de fôlego escrito em conjunto com Engels. Nele, os autores buscaram alinhar uma perspectiva filosófica em contraponto com a esquerda hegeliana, do qual, diga-se de passagem, ambos, em algum momento de suas vidas, fizeram parte (o conhecido "clube dos doutores"). Abandonando qualquer preciosismo teórico-filosófico, podemos dizer que a esquerda hegeliana situava-se em relação a Hegel criticamente, i.e., não apenas buscavam elevar conceitualmente o mestre, como procuravam, a partir das noções de Hegel, criticar a velha sociedade alemã. Com efeito, a filosofia de Hegel prestava-se a duas interpretações: conservadora ou crítica. Podemos visualizar isso a partir de uma frase proferida pelo filósofo alemão: "o real é racional; o racional é o real". Conforme se posicionam a esquerda ou direita do espectro político, assume-se uma parte dessa frase como a mais reveladora: ora se diz que a realidade deve-se conformar como o seu modelo ideal racional, assumindo uma posição crítica em relação a realidade; ora se compreeende que a realidade é o racional, assumindo uma posição conservadora.
Outro aspecto relevante é a adoção, por parte dos autores, do materialismo de Feuerbach. Evidentemente, não se trata de uma incorporação integral do materialismo de Feuerbach, que os autores consideravam ainda idealista. No entanto, a abordagem materialista apresenta-se fundamental para dar o passo decisivo em direção à crítica ao idealismo alemão.
Essas breves considerações nos servem apenas para uma ligeira apreciação da obra, que tentaremos desenvolver a seguir focalizando na noção de Ideologia. O livro desenvolve o materialismo histórico como concepção de transformação histórica. Tendo-nos ocupado dessa temática anteriorimente, resolvemos não aprofundar a questão, a não ser no que diz respeito direta ou indiretamente a noção de ideoligia.
Questões norteadoras:
1) O que podemos entender por ideologia? Qual a sua importância às sociedades contemporâneas? Quais ideolgia marcaram o mundo Ocidental no século XX?
De maneira geral, o senso comum entende por ideologia toda a forma de pensamento desconectada com a realidade e que a obscurece, dessa forma a falseando. Em outras palavras, seriam formas rígidas de idéias preconcebidas que distorcem a compreensão da realidade. Diz-se desse modo que alguém está falando ideologicamente quando se supõe que seu sistema de crenças e pensamento se sobrepõe às evidências - ou seja, quando esse alguém não consegue ver as coisas como realmente são, mas apenas através de princípios gerais que buscam esgotar determinada situação. Ou ainda, tomamos, ordinariamente, por ideologia formas de conhecimento ou sistemas filosóficos e de de crenças que têm implicações significativas na organização social, justificando, ou melhor, legitimando determinadas formas de dominação. Desse modo, o termo não está relacionado apenas com o sistema de crença, mas, também, pode estar vinculado a questões de poder. Sendo assim, as ideologias forneceriam condições para a continuidade de sistemas políticos, mediante a difusão de idéias que o legitimem e combate das que possam lhe desafiar, obscurecendo a realidade social. As ideologias dariam condições de continuidade para as formações sociais mediante a resolução ou obscurecimento dos conflitos sociais reais nos sistemas de pensamento. Nisso reside sua importância de forma negativa para as sociedades contemporâneas. O século XX foi marcado por duas grandes ideologias: o liberalismo (hj, neoliberalismo) e o socialismo. O socialismo perdeu muito de sua força após os eventos que levaram ao esfalecimento da URSS. O liberalismo tornou-se hegemônico, e assumiu novos contornos com o neoliberalismo.
2) Em resumo, como podemos definir a ideologia segundo os autores?
A noção de ideologia é muito mais complexa do que a precedente. Seus desdobramentos, a partir de Marx, tomaram rumos diversos. Em ideologia alemã, contudo, Marx e Engels consideram ideológica toda forma de pensamento desvinculada da prática social, tomada em si mesma, e que, mediante um processo de inversão, passa a ser compreendida como a própria origem e fundamento da vida histórica.
3) Qual a relação entre os bens de produção de um povo e a formação de sua ideologia?
"A produção das idéias, das repersentações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material e o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real" (MARX e ENGELS).
Há dois pontos a serem levantados. Em primeiro lugar, Marx está afirmando que as idéias, as representações e a consciência "emanam" da vida material, portanto, é por ela condicionadas. O que ele está considerando é o homem real, que é o verdadeiro produtor das idéias, condicionaodo por um determinado estágio de desenvolvimento da vida material. Opõe-se, pois, ao empirismo sensualista (Feuerbach), na medida em que o conhecimento é produto da atividade social dos homens.
Em segundo lugar, quando afirmam que "no princípio" existe esse condicionamento, eles estão também considerando a possibilidade de que essas idéias, representações e consciencia do ser podem se apresentar desconectadas da vida material, fetichizadas em uma coisa em si, que, mediante um processo de inversão, podem ser compreendidas como a própria origem da história. No entanto, esse descolamento das idéias em relação ao processo da vida material decorre do próprio desenvolvimento das forças produtivas e das relações a ele correspondetes. O que Marx e Engels têm em mente é o processo de divisão do trabalho material e espiritual. Essa divisão implica que, dado o desenvolvimento das forças produtivas, um grupo de pessoas pode ser liberado das exigências do trabalho material e dedicar-se exclusivamente a atividade intelectual. Desse modo, estão dadas as condições para que a consciência possa "iludir-se" de que é realmente independente da realidade material. A separação entre as idéias e a realidade material reflete uma desconjunção na própria realidade. Decorre, portanto, do desenvolvimento das forças produtivas e das relções correspondentes.
4) Explicar o trecho: "Na história até aqui existente é empiricamente demonstrável o fato de que os indivíduos, com a extensão da atividade para uma atividade histórico-mundial, tornaram-se cada vez mais subjulgado a uma potência que lhes é estranha..."
A partir de determinado estágio de desenvolvimento produtivo, os produtos e processos humanos escapam totalmente ao controle dos sujeitos que os engendraram, passando a manifestar uma existência autônoma. Apresentam-se, então, como uma força estranha, coisificada, que se impõe aos seres humanos - como uma realidade alienada. Assim como as instituições e produtos humanos, a consciência pode aparecer dissociada das práticas dos homens, manifestando-se como entidades em si mesmas e impondo-se como origem e fundamento da história. Essa é a natureza da ideologia, particularmente da ideologia alemã.
5) Argumentar a afirmação: "as idéias das classes dominantes são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante..."
A classe que controla a força material controla também a produção espiritual. O grupo que detém os meios de produção material tem a seu dispor os meios de produção e difusão de suas idéias. Essas idéias são, portanto, as idéias do grupo dominante, expressam a consciência que os grupos dominantes possuem das relações sociais. São, pois, as idéias de sua dominação. Consistem em idéias dominantes por se colocar acima das representações de outros grupos, ou classes, e expressarem os interesses da classe dominante. Essas idéias, contudo, só podem se tornar dominantes na medida em que aparecem desligadas dos grupos dominantes. Ora, se estivesse clara a relação delas com os grupos dominantes, os grupos subordinados teriam razões suficientes para se oporem a elas. No entanto, essas idéias têm a aparecência de serem autônomas, e são suficientemente abstratas para se generalizarem em toda a sociedade. Incorporada por outras classes, apresenta-se como "falsa consciência", não no sentido de estar em desacordo com a realidade, mas de não corresponder às suas condições de existência, desse modo estranha a ele.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Manifesto do Partido Comunista


Sou especialmente reticente com relação ao pensamento marxista. Não por questão de oposição ideológica, mas por sentir sempre estar caminhando em terreno movediço. Em parte isso se deve ao fato de Marx ser o mais comentado e polemizado entre os três "fundadores" da sociologia (ou melhor, clássicos, no sentido forte do termo). A fim de completar a trilogia, que há muito estou devendo, apresento o que seria, talvez, a mais consistente ou sintética obra do intelecto de Marx, o Manifesto do Partido Comunista.
Antes de tudo, porém, é preciso esclarecer o que se entende por um manifesto, para compreender a natureza do documento escrito por Marx. Um manifesto é uma manifestação pública e solene das razões que justificam certos atos ou em que se fundamentam certos direitos. O Manifesto do Partido Comunista constitui, precisamente, na exposição pública das razões e propósitos da Liga dos Comunistas, i.e., as razões de o proletário revolucionar o estado de coisas estabelecido pela burguesia, especificamente as relações de produção engendradas pelos burgueses, cuja forma jurídica é a propriedade privada dos meios de produção. A Declaração de Independência dos Estados Unidos da America e o “Minha Luta” (de Hittler) são outros exemplos de manifestos políticos conhecidos na história.

A Relação entre Burguesia e Proletariado no Manifesto do Partido Comunista
Na medida em que a burguesia progride, i.e., em que concentra os meios de produção, desenvolve-se também o proletariado, que é a classe despossuída dos meios de produção, que está obrigada a dispor, em troca de salário, sua força de trabalho para sobreviver. Em outras palavras, a burguesia, detentora dos meios de produção, emprega mão de obra assalariada, que, utilizando os meios de produção do burguês, produzirá para ele, em troca do salário, bens a serem trocados no mercado visando o lucro.

“todas as relações fixas e cristalizadas, com seu séquito de crenças e opiniões tornadas veneráveis pelo tempo, são dissolvidas, e as novas envelhecem mesmo antes de ser consolidarem. Tudo que é sólido e estável se volatiza, tudo que é sagrado é profano, e os homens são finamente obrigados a encarar com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas relações recíprocas”
A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente as forças de produção, por conseguinte ela revoluciona as relações de produção e toda a estrutura ideológica que se ergue sobre essa base. Em outras palavras, as relações de produção engendradas pela sociedade burguesa põem a nu toda a relação de exploração a que está submetida a classe oprimida, o proletariado – sem que qualquer mistificação religiosa, ou de qualquer outra natureza, se interponha – numa forma de exploração direta e aberta, cujo intermediário é o dinheiro.

“A condição mais essencial para a existência e a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de particulares, a formação e o aumento do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado. O trabalho assalariado baseia-se exclusivamente na concorrência dos próprios operários entre si. (...) A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”
Ao concentrar os meios de produção, a burguesia destituiu uma grande parcela da população dos meios de sobrevivência, a qual resta apenas empregar a sua força de trabalho como artigo de troca. Dessa forma, o proletário constitui-se numa mercadoria como qualquer outra, exposto às mesmas vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado. No entanto, Marx não estava interessado apenas em descrever o regime capitalista. Ele queria demonstrar a sua natureza contraditória e antagônica. Marx afirma que o desenvolvimento incessante das forças produtivas (em que se incluem, não apenas os insumos produtivos, como também a força de trabalho) desencadeado pela burguesia encontrará o seu limite nas relações de produção, cuja forma jurídica são as relações de propriedade - as relações de produção implicam, não apenas quem serão os detentores dos meios de produção, mas também as maneiras de repartição das riquezas. A burguesia precisa revolucionar constantemente os meios de produção, e, por essa via, submete o proletariado a formas cada vez mais rotineiras e simples de trabalho, reduzindo, em conseqüência, a retribuição devida aos seus esforços. Dessa forma, a burguesia alcança níveis extraordinários de produção, e, no mesmo movimento, empobrece uma parcela significativa da população, os proletários. Resulta disso uma produção em níveis superiores a capacidade acumulada de consumo, i.e., uma crise de superprodução. Esta crise é a manifestação do caráter contraditório do regime capitalista, em que as relações de produção burguesa terminam constituindo um sério obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas. No entanto, não é apenas nesse sentido que o regime capitalista está fadado ao fracasso por razões intrínsecas. Com o avanço da indústria, o proletário não apenas se multiplica, mas concentra-se em massas cada vez maiores. O desenvolvimento do capital polariza cada vez mais o antagonismo social: as classes intermediárias (os pequenos produtores, comerciantes e camponeses) tendem a se posicionar, segundo Marx, do lado proletariado. O conflito de classes se simplifica. A burguesia foi a classe que destruiu o regime feudal, e para isso contou com a mobilização dos seus operários, dando-lhes os instrumentos políticos necessários. Mas, se o proletariado foi a classe que resultou e ajudou involuntariamente nessa transformação, será ela que buscará, ao tomar consciência de seu papel histórico, o fim do regime capitalista e, portanto, das relações de exploração,e a propriedade privada dos meios de produção, que constitui a sua forma jurídica. Reunidos em condições precárias de trabalho, o trabalho desumano e a baixa remuneração fazem com que proletariado e burguesia entrem em choque intermitente, que gradativamente assume o caráter de conflito de classe. O resultado dessa luta é a reunião dos operários, que se opõem aos burgueses, constituindo a verdadeira classe revolucionária, por ser o produto mais autêntico do regime capitalista. Dessa forma, o regime capitalista invoca o desenvolvimento das forças produtivas e a mobilização da classe operária necessários para a sua destruição.

Em breve, ou bem mais tarde, pretendo apresentar as nuaças especificadoras das noções de desigualdade social que podem ser encontradas nos clássicos da sociologia. Essa apresentação pretende, em primeiro lugar, afastar uma identificação forte entre as noções de classe social empregadas no marxismo daquela utilizada por Weber. Em segundo lugar, introduzir como se engendra a desigualdade social a partir da perspectiva do funcionalismo moral de Durkheim, que difere, para todos efeitos, da definição sugerida pelo funcionalismo geral, elaborada pelos teóricos americanos, Davis e Moore.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Críticas a Weber


Gostaria de apresentar brevemente duas crítcas ao esquema weberiano. Não as considero, pessoalmente, suficientes para invalidar a obra do autor alemão. No entanto, oferecem elementos para melhor compreender seu esquema metodológico.

1. O mais interessante na obra weberiana é o resgate da subjetividade do ator social e a sua vontade de tratar esse tema da forma mais objetiva possível. Contudo, vislumbramos algumas brechas em seu esquema, todo ele dependente de uma froucha noção de "sentido subjetivo". É adimirável a capacidade desse alemão sistematizar e analisar muitos fenômenos com audácia e correção científica. Contudo, seu retraimento filosófico o levou a abrir mão de uma definição mais satisfatoria de o que seria afinal o significado subjetivo cientificamente válido. Em "economia e sociedade", ele nos apresenta apenas os contornos dessa noção, negando que ela seja aquilo definido pelos juristas, pelos filósofos ou pelos moralistas. Mas não nos apresenta, com efeito, o significado preciso dessa importante noção para o seu esquema teório/metodológico.

2. Também vislumbramos algumas brechas em seus esquema metodologico, especialmente no princípio de relação com os valores na construção dos tipos ideiais. Ora, o que garante que a definição do tipo ideal, fundamentado a partir de princípios valorativos do pesquisador, não vão perturbar todo o trabalho científico, que, desde o início, está atrelado a eles?

Não dá mesmo para dizer que não há questões que possam ser levantadas a respeito do trabalho de Weber. No entanto, não posso deixar de notar que ele foi um grande gênio. Suas contribuições perduram até hoje.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Uma interpretação tipico-ideal de Durkheim


Pessoal, se me permitirem ousar um pouco nas formulações de Durkheim, dotando-o de um esquematismo excessivo, gostaria de propor um modelo que permitiria adotar Durkheim a partir do ponto de vista coletivista assim como individualista. Comumente adotamos o autor francófono como um coletivista, a partir de sua abordagem funcionalista. No entanto, tenho a impressão de que, em certo momento de seu desenvolvimento teórico, especificamente nos seus argumentos quanto a divisão social do trabalho, ele paulatinamente passa a adotar outra perspectiva, individualista, embora, em última instância, são as determinações sociais desse processo o que realmente preocupam Durkheim. O esquema é o que segue.

Se nas sociedades tradicionais, em que existe certo grau de acordo entre os membros quanto aos valores e normas (opiniões e pensamento), a coerção da sociedade é sentida a partir das sanções praticadas pelos demais membros; nas sociedades modernas, em que ocorreu avanço significativo da divisão do trabalho, e que, portanto, a semelhança de opiniões deixa de ser um pré-requisito, então, nestas, coerção é sentida pela incapacidade da ação individual às condições de existências objetiva (seriam as formas de sentir, agir e pensar, consolidadas - as formas de ser?). A maneira como Durkheim exemplifica isso é bastante eloqüente e merece ser reproduzida. Ele ilustra a situação de um comerciante que é forçado a adotar a moeda padrão caso tenha esperanças de prosperar em seu ramo - menos que o aspecto convencional da moeda, que não é imposto enquanto concordância subjetiva a opinião comum, mas uma convenção funcional ao sistema de mercado. Portanto, menos do que um desacordo com a consciência coletiva (que fora esgarçada no processo de divisão do trabalho), são as forças coagentes das condições objetivas de existência que condicionam, até certo ponto, a ação do comerciante, no caso exposto. Dito de outro modo, podemos afirmar que no primeiro caso a sociedade exerce sua influência nos sentimentos e pensamentos dos atores; no segundo caso, ela condiciona as possibilidades de ação. Por um lado, age no indivíduo desde o seu interior; por outro lado, age a partir de fora do indivíduo.